set 23

All Capp e Ferdinando

al_cappAI Capp, ou Alfred Gerald Caplln, nasceu em 28 de setembro de 1909 em New Haven, Connecttcut, E.U.A. Seus pais eram imigrantes Lituanos muito pobres, e foi nessa pobreza que AI Capp passou a infância e a adolescência, sempre invejando de lon­ge o bem-estar da classe média americana. Aos nove anos, atropelado por um bonde, perdeu uma perna, o que o marcaria para o resto da vida.

A vocação dos quadrinhos surgiria por necessidade: sabendo que Bud Fischer, o autor de Mutt e Jeff, ganhava 3000 dólares por semana, Capp tentou essa profissão aos 19 anos, fazendo uma tira, Col. Gilfeather em 1927, para a Associated Press. Foi o seu primeiro emprego e durou apenas seis meses, pois Capp se transferiu para Nova York, onde um novo atropelamento iria mudar a sua vida: desta vez não perdeu nenhum membro, mas ganhou os pedidos de desculpas do atropelador, Ham Fischer, o criador de Joe Sopapo (Joe Palooka). Capp estava procurando emprego com seu portfólio debaixo do braço, e ao ver os desenhos espalhados pela rua, Fischer contratou-o como assistente. Apesar de Fischer ter sido um excelente trampolim para ele, Capp não foi muito feliz no período em que trabalhou como “ghost” de Joe Sopapo. As promessas de fama e fortuna feitas por Fischer se resumiam a um magro salário, e por isso Capp resolveu tentar a vida por conta própria. Depois de ter estudado na Boston Museum School e na Philadelphia Academy of Fine Arts.

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Um protótipo de Ferdinando foi submetido ao King Features Syndicate, mas ante a exigência de transferir o persanogem da roça para a cidade grande, Capp tratou de procurar outro sindicato. Enfim, em 1934, ele conseguiu que a United Feature se interessasse em distribuir a tira como ele havia criado, nas páginas do The Mirror, de Nova Vork no dia 20 de agosto de 1934 levando a assinatura do até então desconhecido “AI G. Cap” (Alfred Gerald Caplin), que logo aboliria o seu nome do meio e acrescentaria um segundo “p” ao sobrenome. Nascia assim uma das mais importantes histórias em quadrinhos de todos os tempos.

Poucos meses de publicação foram suficientes para que os personagens principais atingissem as características que ainda hoje os distinguem. Daí por diante foi um sucesso absoluto. Capp ficaria na auge por cerca de três décadas, quando o cansaço fez a história decair sensivelmente. Mas o sucesso mesmo só explodiu em 1939, quando, entre outras coisas, Capp retomou uma tradição legalizada na Escócia em 1288 (e tam­bém na França e na Itália, no século XV) e inventou O Dia de Maria Cebola (ver Gibi -Semanal n° 32 – RGE).

A importância de AI Capp na história das histórias em quadrinhos é indiscutível: ferdinando está entre as poucas obras de autor que ajudaram as HQ’s.a tornarem-se definitivamente adultas. Personagens e mitos, tradições e hipocrisia, convenções e preconceitos serviram para que Capp criasse um mundo de sátiras ao canibalismo industrial, ao macarthysmo, à política de ajuda aos países sub­desenvolvidos, às alianças militares, à sociedade de consumo e, em suma, ao próprio american way of life. Porque Brejo Seco (Dogpatch), localizada no sul dos Estados Unidos e povoada por ignorantes empedernidos, é a outra face da América. Mesmo modificados pelo estilo de Capp, os “casos” de Brejo Seco falam sempre da existência de um macrocosmo sobressaltado e sublinham seus momentos cruciais, tornando-se assim um comen­tário, mais ou menos agressivo, mais ou menos pungente, da vida cotidiana do país.

E esse aspecto de crônica diária, engraçada e crítica ao mesmo tempo, chegou até a levar o escritor John Steinbeck (“A Leste do Éden”) a recomendar AI Capp para o prêmio Nobel (1953). “Antes dele, somente Cervan­tes e, Rabelais conseguiram criticar tão causti­camente e ao mesmo tempo tornar essa crítica aceita por todos e divertida. Para mim, Capp é o melhor escritor do mundo”, disse Steinbeck. Ferdinando é uma figura solidamente enraizada nos Estados Unidos. Acredita na salvaguarda do sis­tema através de reformas; é honesto, desinteres­sado, altruísta, eufórico e vibrante. Com todos os seus erros e injustiças, a melhor América é ainda aquela que tem como cidadão um tipo como ele, sincero em seus propósitos de modificar as con­venções: uma América contestada, não rejeitada.

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À parte o traço inconfundível, uma das tõnlcas do trabalho de Al Capp sempre foram os nomes dos personagens. Álvaro de Moya, fanático por Fer­dinando e em especial pelos Shmoos, dá em seu livro “Shazam” uma bem elaborada relação dos nomes mais fantásticos que aparecem em  Ferdinando a maioria, infelizmente, Impossível de traduzir: Marryin’ Sam, Stupefyin’ Jones, Ear­thquake McGoon, o azarado Joe Btfsplk, Mlnnie Moustache, Wild BiII Hickup, Colossal McGenius, Reactionary J. Repugnant, Moonbeam McSwlne, Eddie McShunk, Mitzi Mudlark, Apassionata von Climax, o maestro Concertina Constlpato… E ainda Disgusting Jones, Harry Raspoutlne Truman, Daphné Degrandlngham, Dumpington van Lump, Basil Bassoon e Clark Bagel, entre outros. “Vo­kum”, nome original da família (Buscapé, no Brasil) é uma mistura de yokel (camponês) e hokum (ab­surdo). O “Ii’I” (de “IIUle”, pequeno) de LI’I Abner jámostra bem a predileção de Capp por nomes que ridicularizem de saída aqueles a quem pertencem. Violeta, mulher de Ferdlnando, no original é Daisy Mae. Xulipa Buscapé, a mãe, é Mammy Yokum; Brejo Seco é Dogpatch, e a si mesmo Capp cari­caturou como AI Vapp.

Capp também teve seu time de “ghosts” formado por nomes como Frank Frazetta e Basil Wolwerton em início de carreira.

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Ferdinando Buscapé era um rapaz de seus eternos 19 anos que morava com a mãe e o pai, Xulipa e Lúcifer Buscapé, na miserável Brejo Seco, nas montanhas do Kentucky. Nesse lugarejo inexistente nos mapas se desenvolveria todo um universo de personagens que enriqueceriam ainda mais a série: Violeta Buscapé

(originalmente da famllia Scragg, que após dezoito anos de tentativas conseguiu agarrar Ferdinando no Dia de Maria Cebola), os famigerados Scraggs, a imunda Dulçurosa Suíno (Moonbeam McSwlne), o remanescente de uma tribo de índios que habitava o local, Gambá Solitário e seu companheiro Joe Cabeleira, Joe Míope, Joe Btflspk, Samuel Casamenteiro, a porca Salomé (último remanescente da raça dos Hammus Alabammus) e dezenas de outros.

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A grande novidade da tira era que não só os personagens eram caipiras, como falavam exatamente como tal. A ingenuidade de Ferdinando servia de ponto de partida para a maioria das histórias, todas elas calcadas em situações praticamente absurdas. O sucesso não se fez de rogado e logo Ferdinando conquistava uma posição de prestígio no universo do quadrinho norte americano, acarretando uma avalanche de imitações. Uma delas Abbie and Slats (Zé Mulambo) roteirizada pelo próprio Capp. Em 1935, incorporava-se à tira diária uma página dominical colorida e a saga de Ferdinando prosseguia. Durante pelo menos trinta anos o sucesso foi absoluto: Ferdinando virou capa de revistas como Time e Life e contava com numerosas legiões de fãs.

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Outros personagens foram se incorporando às histórias e a fórmula satírica da tira se consolidou. Capp não poupava ninguém, nem mesmo os próprios quadrinhos, e em 1942 surgia outro personagem tão forte quanto Ferdinando, o detetive Joe Cometa (Fearless Fosdick), criado à imagem e semelhança de Dick Tracy e cujas aventuras Ferdinando passaria a acompanhar desde então, idolatrando o seu herói. Tanto que, quando Joe Cometa se casou num episódio de 1952, imediatamente Ferdinando se deixou agarrar por Violeta e se casou também. Só que, se para Cometa tudo não passaria de um sonho, Ferdinando estava irremediavelmente fisgado para o resto da vida. O casamento deu frutos: após uma gravidez tão prolongada que alguns leitores chegaram a enviar livros de medicina para Capp, nascia em 1953 o filho do casal, Joãozinho Honesto (Honest Abe). Mas a família Buscapé ainda teria um novo acréscimo na figura de João Magriço (Tiny Yokum), um irmão de Ferdinando que havia desaparecido desde que era um bebê por um descuido de Xulipa e voltaria 17 anos depois já como um forte rapagão. Magriço fora criado assim tão de repente para ocupar a vaga de Ferdinando na tradicional corrida do Dia de Maria Cebola (Sadie Hawkins Days), feriado anual em Brejo Seco e onde toda moça casadoira tratava de perseguir os rapazes solteiros, segundo um tradicional costume local.

Além dos humanos, Capp criou algumas espécies novas de animais, notadamente os shmoos, surgidos em 1948 e possivelmente a mais genial invenção de Capp: com mil e uma utilidades (além de serem totalmente aproveitáveis como alimento e outras coisas, os shmoos tinham o dom de se multiplicar com uma rapidez surpreendente), eles eram a resposta para todos os problemas da humanidade: com um shmoo em casa, ninguém mais passava fome ou necessidade. Mas, como representavam a falência total do sistema capitalista, os simpáticos animaizinhos foram considerados ilegais e voltaram para sempre ao Vale dos Shmoos (salvo algumas retomadas de Capp ao tema, quando um ou outro escapava e provocava pânico entre os homens de negócios ou as autoridades). Qualquer acontecimento era ponto de partida para histórias num eterno tom de farsa e que metiam Ferdinando e seus parentes e vizinhos nas mais absurda situações. Envolvendo personagens reais com o pessoal de Brejo Seco, Al Capp não perdoava ninguém e desafiava qualquer um dos alicerces da sociedade.Com o passar dos anos, a pena de AI Capp se tornou bem menos agressiva. Talvez por ele ter se transformado num dos mais populares representantes da classe alta, assumin­do também todas as suas características exteriores e intelectuais. Afirmou em várias ocasiões que seu trabalho não tinha outro sentido que o de lhe trazer dinheiro, “a riqueza nunca possuída e sempre desejada”. Mostrava-se convencido da divisão dos homens em duas classes: a que detém o poder, e a que não conta. E quando um jornalista certa vez lhe perguntou qual tinha sido sua motivação para criar Ferdinando, Capp respondeu: “Fome. Eu tinha muita fome naquela época. Então criei Ferdinando, o trans­formei em um grande negócio e eu engordei. Daí em diante, a motivação tem sido somente ganância.”

Em pleno macarthismo, teve a ousadia de criar os shmoos; tido como liberal nos anos 40 e 50, Capp de repente deu uma guinada e tornou a história bastante conservadora dos anos 60 em diante, o que lhe valeu protestos dos leitores. A partir daí a história foi declinando e os clichês se repetindo. Outro fato marcante foi quando Al Capp entrevistou John Lennon e Yoko Ono no programa “Bed In”, onde ao metralhar com toda arrogância e cinismo os ideais de Lennon/Yoko os telespectadores testemunharam um Al Capp bem diferente daquele dos anos 30/40, ele agora representava tudo aquilo que sempre combatera (pelo menos no papel).  Em 1977, fechou o estúdio. e se aposentou, já velho e doente. Após uma longa enfermidade, que nos últimos dois anos o mantivera preso a uma cadeira de rodas, veio a falecer dois anos depois em relativa obscuridade em novembro de 1979.

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Além das tiras em quadrinhos, Ferdinando ganhou dois filmes para o cinema nos anos de 1940 e 1959, ambos com o título: Li´l Abner, sendo que a versão de 1940 contava com o ator Buster Keaton no papel título. Já a versão de 1959 foi produzida no formato de comédia-musical com a presença de Julie Newmar. Houveram duas tentativas de transformar Ferdinando (Li´l Abner) em série de tv, com 2 pilotos produzidos respectivamente nos anos de 1967 e 1971. Melhor destino teve a peça de teatro: Li´l Abner  encenada em 2005 pelo grupo teatral Barn Theatre com o seguine elenco:

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Polegar Pequeno…………………..John M. Moauro

Joe Cabeleira……………………… Andy Planck

Dulçurosa Suíno………………… Ellen Schnier

Sam Casamenteiro……………… Scott Burkell

Violeta……………………………… Kelley Bray

Lúcifer…………………………… .. Anthony  Christian

Xulipa………………………………. Penelope Alex

Ferdinando……………………….. Guy Lemonnier

 Escapulino Olho-Frio…………. Ryan Stutz

o diretor Charlie Misovye soube transpor para o palco o espírito da criação de Al Capp.

A tv brasileira chegou a exibir a série The Beverly Hillbillies (com o título oportuno de A  Família Buscapé) que nada tem a ver com a criação de Al Capp, assim como a versão para o cinema realizada em 1993.

Ferdinando e suas publicações no Brasil

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No Brasil, Ferdinando surgiu nas páginas do Globo Juvenil e do Gibi, tendo sido publicado em vários jornais, notadamente O Globo. Apareceu em vários almanaques do Gibi e do Globo Juvenil, e teve sua revista própria apenas em 1961, que duraria 32 números, parando em 1968, as histórias publicadas na revista Ferdinando eram oriundas das páginas dominicais dos jornais norte-americanos. O primeiro número teve capa de Gutemberg Monteiro (que residiu nos EUA, desenhando as tiras de Tom e Jerry sob o pseudônimo de Goot) e saiu em março-abril de 1961, sendo re-impresso na década de 80, em edição especial. A coleção da revista Ferdinando dá uma visão parcial da obra de Capp no período de 50/60, já que as melhores histórias (as tiras) foram omitidas. Mesmo assim, a revista publicou algumas obras-primas, como a aventura de Joe Cometa “O Caso dos Feijões Envenenados”, uma das melhores do estúpido ídolo de Ferdinando. Inicialmente, a revista era impressa em duas cores, passando para preto e branco depois e tornando-se colorida nos últimos números. Na década de 70, sairia ainda em uma coleção de 15 livros através da Editora Saber, com o nome A Familia Buscapé. Em 1975, a Rio Gráfica relançou a revista Ferdinando em formatinho, durando apenas 6 edições. Além disso Ferdinando apareceu em vários números do Gibi Semanal e em alguns almanaques do Gibi Nostalgia. A edição de n 3 de Gibi Especial apresentou a primeira história dos shmoos, porém com remontagens. A edição 15 de A Familia Buscapé (Saber) trouxe a primeira parte da segunda aventura com os Shmoos, porém com a revista cancelada, o leitor brasileiro ficou sem saber como terminou a segunda vinda dos Shmoos ao “maravilhoso mundo capitalista da América do Norte”.

O universo anti-americano criado por Al Capp sobrevive até hoje e permanece atual.

Consulta Biibliográfica:

Gibi de Ouro 01 – Ferdinando – RGE

set 23

A Turma do Charlie Brown

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O pai de Charlie Brown também é Charlie, Charles M. Schulz (1922 – 2000). E ele confessava: “Acho que sou cem por cento Charlie Brown. Milhões de pessoas lêem as coisas tolas que eu fiz quando era garoto”.

Sparky (seu apelido em criança) nasceu em Minneapolis, Minnesota, em 1922. Filho de um barbeiro (como Charlie Brown) lia “montes de histórias em quadrinhos, o dia inteiro”. Na escola só se orgulhava mesmo dos seus desenhos, orgulho que não era compartilhado pelo professor de Desenho. Nos esportes também era a encarnação do fracasso e lembra “com dor no coração” o dia em que seu time de beisebol perdeu por 40 a O.

Trapalhão, tímido, bem intencionado e mal sucedido, Charlie Schulz foi Charlie Brown. Seu sonho era ser desenhista. Se possível, de histórias em quadrinhos. Estava fazendo um curso de arte por correspondência quando foi chamado para o serviço militar, pra guerra. Voltou em 1946, sargento.

Aí ele conseguiu emprego numa equipe de desenhistas de quadrinhos e “para pagar as contas” começou a dar aulas numa escola popular de arte. Foi lá que uma de suas alunas, Joyce Halverson, fez com que ele desse a ela um anel de noivado: Um ano depois estavam casados. Um ano depois de casados ele vendeu sua primeira charge para o Saturday Evening Post, e começou também a publicar os seus primeiros quadrinhos no St. Panl Pionner Press (realmente um pioneiro) uma vez por semana. Já eram as aventuras de Charlie Brown e seus amigos.

Só que a estória não se chamava Peanuts (Minduim, isto é, a turma do amendoim): chamava-se Li’1 Folks (Amiguinhos). No dia em que pediu aumento Charlie Brown foi demitido. Aliás, Charlie Schulz.

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Em 1950 o United Feature Syndicate comprou a tira e mudou o nome, sob o mais absoluto protesto do autor. Mas aí começou o sucesso.

As aventuras e desventuras de Charlie Brown passaram a sair em oito jornais, todos os dias. Schulz ganhou 90 dólares no primeiro mês, 500 no segundo, mil no terceiro e hoje só os quadrinhos rendem mais de 300 mil dólares por ano, a seus descendentes.

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E isso é o que menos rende porque os posters, as camisas, os relógios, os bonecos, os travesseiros e almofadas, os baralhos, os calendários, os colares, as pulseiras, os móbiles, os produtos licenciados para usar personagens dos Peanuts rendem mais de três milhões de dólares.

Charlie Brown, Linus, Lucy, Snoopy, Schroeder, são os principais personagens dos Peanuts e de uma das mais bem sucedidas aventuras editoriais do nosso tempo.

O império de Charles M. Schulz inclui 1340 jornais e revistas do mundo inteiro, em 19 línguas. Com um total de 60 milhões de leitores.

A coisa acabou – como era de se esperar – no consumo maciço. Os personagens de Peanuts viraram mercadorias e o produto nacional bruto do mundo de Charlie Brown & Co. chegam aos 150 milhões de dólares anuais, abrangendo desde inúmeros milhares de Snoopys de borracha inflável, pulôveres e bonés de beisebol Charlie Brown, bonecas Lucy. prendedores de gravatas Woodstock. A tal ponto que fãs de Schulz já se reuniram, em algumas grandes cidades, para protestar contra o excesso de comercialização dos personagens.

Peanuts não foi imediatamente um sucesso espantoso. Precisou um pouco de tempo antes de pegar, quase cinco anos. Vendo as primeiras tiras, nota-se a diferença: Charlie Brown, no começo, não era o perdedor de hoje. Tinha uma personalidade muito mais parecida com a de Linus. Desenvolto e com uma certa fanfarronice. Os outros personagens eram, no começo, Patty, Shermy e Snoopy. Patty e Shermy eram “muletas”, pois o único herói era Charlie Brown.

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Quando Lucy chegou, no segundo ano, não era importante. Chegou como uma menina esperta, um pouco baseada em nossa primeira filha. Dizia muitas coisas impertinentes e engraçadas. Mas aos poucos Charlie Brown se tomou mais complexado. Snoopy começou a se tornar um cão-não-cão. Lucy a desenvolver sempre mais a sua forte personalidade, o cobertor de Linus começou a se tomar uma obsessão, Snoopy foi para o telhado da sua casinha e chegaram Schroeder e Beethoven.

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Na Turma do Amendoim o herói (ou anti-herói) é Charlie Brown. Ele não é, absolutamente, um menino como os outros. Pra começo de conversa ele é sempre Charlie Brown, por extenso, e imagino que seja chamado assim para que não haja a menor possibilidade de confundi-lo com um Charlie qualquer.

A aparência é inconfundível: Charlie Brown é aquele menino de cabeça redonda, o que está sempre com a mesma camisa com a barra em ziguezague. Todos exploram o pobre Charlie Brown e se divertem fazendo-o de bobo, mas Charlie Brown não é um bobalhão. Charlie Brown é um ser humano normal, generoso, amorável, simpático e errado.

Errado? Erradíssimo. Charlie Brown é o que se pode chamar um fracasso completo: jamais conseguiu empinar um papagaio, perde sempre no jogo de damas, nunca comemorou a vitória do seu time de beisebol (do qual ele é o técnico, o capitão e o principal jogador).

Charlie Brown vive querendo agradar e sua preocupação permanente é tomar-se um garoto popular na sua turma. Mas vive deprimido, infeliz, tem pena de si próprio porque sabe que a tarefa é impossível e que ele vai fracassar mais uma vez, como fracassa em tudo.

Ainda por cima, acredita na bondade das pessoas e está sempre sendo surpreendido pela maldade da vida. Mesmo o seu cão não acredita muito na sua capacidade de sobreviver e só não o defende mais porque, como diz, “detesta que façam de mim uma idéia paternalista”.

Na verdade foi Charlie Brown o primeiro a brincar com a Nona Sinfonia, pois para Schulz era divertida a idéia de um menino tocando todas aquelas notas complicadas. E para prosseguir com esse conceito, veio o piano de brinquedo e Schroeder que era pequeno, cresceu rapidamente.lucy_van_pelt

Lucy é uma menina mandona, para começo de conversa. Muito antes das mulheres estarem interessadas nos movimentos de libertação feminina ela já estava em plena campanha para tomar o lugar de técnico do time de beisebol. E se recusava a vestir calças compridas para não ficar “com a ridícula aparência de um menino”. Egoísta, pretensiosa, fofoqueira, dominadora, vã, traiçoeira, e até tão egocêntrica que não pode entender que alguém não goste dela.

Ela adora atormentar Charlie Brown. A quem persegue com sarcasmos, observações ferinas. Ridicularizando-o sempre que pode. A única pessoa a quem Lucy não agride é o Schroeder. Schroeder é a paixão da sua vida, enquanto a paixão da vida de Schroeder é a Arte, especialmente a Música, particularmente Beethoven. Schroeder já nasceu pianista e a sua capacidade musical está anos e anos à frente do seu desenvolvimento físico. Schroeder só pensa em música e passa os dias executando Beethoven num piano de brinquedo, com um talento e um virtuosismo notáveis.schroeder_piano

Schroeder é capaz de esquecer o dia do próprio aniversário, mas não admite que esqueçam o aniversário de Beethoven. Ele gosta de tocar só para quem entende: Linus e Snoopy, mas sua maior

fã é mesmo Lucy. Que, para seu desgosto, é incapaz de reconhecer a Sonata em Fá Menor. (Aliás, Schroeder usa o primeiro compasso da Sonata para assobiar pelo Snoopy).

Schroeder, ao contrário, encontra a paz na religião estética: sentado ao seu pianinho de araque, de onde tira melodias e acordes de complexidade transcendental, afundado em sua total admiração por Beethoven, salva-se das neuroses cotidianas, sublimando-as numa alta forma de loucura artística. Nem mesmo a amorosa e constante admiração de Lucy consegue comovê-lo (Lucy não gosta da música, atividade pouco rendosa, cuja razão não compreende, mas admira em Schroeder um vértice inatingível, e prossegue sua obra de sedução, sem nem mesmo arranhar as defesas do artista): Schroeder escolheu a paz dos sentidos no delírio da imaginação.linus

E Linus? Linus é tão inseguro que vive chupando o dedão. Fetichista: agarra-se ao seu cobertor como um náufrago ao salva-vidas. Um cobertor que acaba imundo, mas que ele não larga, e jamais abandonará. Um dia as meninas resolveram agarrá-lo, tomar o cobertor e lavá-lo. Linus ficou em estado de choque até que devolveram o cobertor. E mesmo depois disto continuou cabisbaixo, macambúzio, na fossa. E quando Lucy disse a ele que aquilo era uma atitude infantil, ele retrucou: “É? Como é que você se sentiria se tivessem feito uma lavagem cerebral no seu melhor amigo?”.

Linus é emotivamente retardado, mas intelectualmente precoce, fiel admirador de sua professora Miss Othmar. Seu principal problema é o principal problema de quase todo o mundo hoje em dia: segurança. E ele tem consciência de que a segurança é cada vez mais difícil. Resultado: as únicas coisas que o defendem de precipitar-se no caos psíquico são o seu dedão e aquele maravilhoso cobertor, que não o impedem de ser um intelectual, o filósofo da turma.

Onerado de todas as neuroses, e a instabilidade emotiva seria a sua condição perpétua, se, com a neurose, a sociedade em que vive não lhe tivesse oferecido também os remédios: Linus carrega aos ombros Freud. Individuou, no seu cobertorzinho da primeira infância o símbolo de uma paz uterina e de uma felicidade puramente oral. De dedo na boca, e cobertor encostado a uma das faces (possivelmente de televisor ligado, diante do qual fica empoleirado como um índio, mas, no extremo, nada, um isolamento de tipo oriental, apegado aos próprios símbolos de proteção). Linus encontra o seu “sentimento de segurança”.

Enquanto Minduim não consegue construir um “papagaio” que não se precipite entre os ramos de uma árvore, Linus revela, de repente, em certos momentos, habilidades de ficção científica e vertiginosas maestrias: constrói jogos de alucinante equilíbrio, atinge no vôo uma moeda de um quarto de dólar com a ponta do cobertor que estala como um chicote.

Escolhido como o símbolo dos analistas americanos, Linus acabou introduzindo um novo gesto os leitores: assim como o polegar para cima é sinal de satisfação e concordância, o polegar na boca significa, dependendo da situação, “você está por fora!” ou “eu estou na minha!!!”.

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Também Pig Pen (Chiqueirinho) teria uma inferioridade de que se queixar: é irremediavelmente, assombrosamente porco. Sai de casa lindo e penteado, e depois de um segundo, os cordões do sapato se desamarram, as calças caem-lhe sobre os quadris, os cabelos se enxovalham de caspa, a pele e a roupa ficam cobertas de uma camada, de lodo. . . Consciente desta sua vocação para o abismo, Pig Pen faz da sua situação um elemento de glória: “Sobre mim se adensa a poeira dos séculos inumeráveis…”,”Iniciei um processo irreversível: quem sou eu para alterar o curso da história?” – não é uma personagem de Becket, naturalmente, é Pig Pen falando, o microcosmo de Schulz atinge as extremas ramificações da escolha existencial.

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Snoopy leva até à última fronteira metafísica as neuroses decorrentes de uma frustrada adaptação. Snoopy sabe o que é um cão; ontem era um cão; hoje é um cão; amanhã talvez ainda seja um cão; para ele, na dialética otimista da sociedade, que consente saltos de um para outro status, não há nenhuma esperança de promoção.

Mas, de hábito, não se aceita a si mesmo, e procura ser o que não é; personalidade dissociada como nunca se viu igual, gostaria de ser um crocodilo, um canguru, um abutre, um pingüim, uma serpente. Tenta todos os caminhos da mistificação, para depois render-se à realidade, por preguiça, fome, sono, timidez, claustrofobia (quando se embrenha em capim alto).

Snoopy tem suas manias também, como dormir em cima da casa “pra ver quando eles começarem a descer.” Eles? Os discos voadores. Snoopy acredita que haja vida inteligente em outros planetas. Ou, pelo menos, vida semi-inteligente. Por vida inteligente ele entende a sua, é claro!

Bailarino, o melhor batedor do time de beisebol, Snoopy já viu Cidadão Kane 25 vezes e é – digamos assim – um ser realizado. Ou quase, porque toda a vez que está voando para a França no seu Sopwith Camel, é derrubado pelo Barão Vermelho, a quem jurou pegar um dia.

Snoopy tem em seu canil uma mesa de bilhar e um Van Gogh (legítimo), e as mesmas neuroses que qualquer outro ser humano: preocupa-se com o nível do colesterol, tem medo de aranhas, não fuma para não ter câncer, sente claustrofobia e não dispensa um bom banho de sol.

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Com cabelos cobrindo desalinhados cobrindo os olhos, uma tradicional camisa listrada e um inconfundível par de sandálias, Patti Pimentinha consegue, às vezes, ser mais desagradável do que Lucy com o seu realismo intransigente. Ela não entende como é que “certas crianças escondem-se num país de faz de conta e fantasia” e faz muita questão de cortar imediatamente qualquer vôo de imaginação. Seja quem for que ameace decolar ela abate imediatamente, inclusive o pobre Snoopy.

Nos esportes, ela consegue ser o que Charlie Brown não é: uma vencedora, mas essa vitória cai por terra quando o assunto é a escola. Incapaz de se manter acordada durante as aulas e dona das respostas certas para as questões erradas, gerando um trauma escolar que perde apenas pelo o do tamanho do seu nariz.

Patti secretamente gosta de Charlie Brown, mas nunca admite isso, nem para si. Pois como uma vencedora pode gostar de um garoto tão fracassado quanto ele?

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Marcie é a única menina da turma que não maltrata Charlie Brown. Estudiosa, totalmente avessa a qualquer tipo de esporte, ela representa o oposto de Patti, a qual trata sempre por “sir” (ou “meu”,

como na tradução dos desenhos aqui no Brasil). Quando estão juntas, formam com perfeição uma representação do yin-yang, e talvez por isso as duas sejam tão unidas. O que faz com que Patti seja vítima das bizarras incursões de Marcie no mundo do corte-costura.

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Sally é a irmãzinha de Charlie Brown, ela começou nas tirinhas, como um bebê e foi crescendo aos poucos, e como todos os personagens, Sally também teve sua cota de traumas, como o pânico de ter de entrar para o jardim de infância. Sua mente criativa perde apenas para a do Snoopy, com direito a tacadas filosóficas que beiram o puro non-sense.

Precocemente ela elegeu Linus como seu amado e cavaleiro andante (sem armadura, porém de cobertor), apesar dos veementes protestos de Linus. A melhor amiga de Sally é a escola, digo, o prédio da escola, com o qual ela compartilha a sua visão do mundo e da sociedade; e se alguém ousar chamar a Sally de maluca, corre o risco de levar uma tijolada na cabeça, pois no mundo dos Peanuts, as escolas são vingativas.

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Talvez o personagem mais inseguro que Charlie Brown seja o passarinho Woosdstock. Melhor amigo de Snoopy, ao qual trata como confidente e muitas vezes fazendo-o de figura paterna. Durante anos (no nosso conceito de tempo) Woodstock foi um pássaro pedestre: tinha medo de voar. E desde que aprendeu (perdeu o medo) a voar, jamais foi capaz de voar em linha reta, traçando no ar um zigue-zague como se carregasse algo muito pesado.

Um dos maiores traumas desse simpático pássaro amarelo, é a ausência de sua mãe. Inconformado com a lei da natureza que separa os pais dos filhotes quando estes alcançam certa idade, mergulha em tristeza e depressão no dia das Mães, por sentir-se abandonado e sozinho no mundo.

Mas o número de personagens é bem mais extenso, portanto ficamos apenas com os principais.

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No Brasil, as primeiras histórias da Turma do Charlie Brown sairam na revista O Capitão Z da EBAL,  e em seguida na revista Pingo de Gente – Ed. O Cruzeiro, cuja adaptação e projeto gráfico eram feitos pelo cartunista Ziraldo, que nos brindou com pérolas nas traduções: Charlie Brown virou João Barbosa (uma homenagem ao letrista da revista Pererê), Linus virou Lino, Snoopy ganhou a tradução literal de Xerêta, e  Schroeder virou Essenfelder. Pingo de Gente teve vida curta e foram os únicos títulos brasileiros que publicaram o material da Tip Top com histórias de uma ou oito páginas da turma do Minduim e não em tiras.

Poucos anos depois a editora Artenova publicou uma série de 48 livrinhos de bolso da turma do Minduim, dessa vez o editor/tradutor Luiz Lobo teve mais tato na escolha dos nomes, além de escrever excelentes resenhas nos primeiros números. O sucesso dos livrinhos gerou uma revista em formatinho do Snoopy e dois álbuns especiais: “Snoopy, volte para casa!” e “Charlie Brown, você é nosso herói!”.

Em seguida ainda acompanhamos as tiras dos Peanuts nas páginas das revistas Grilo e Patota. Depois vieram as editoras Cedibra, Record e Conrad, com álbuns a cores, livrinhos de bolso e edições especiais em formato “tira”.

Atualmente a editora L&PM está publicando todas as tiras do Charlie Brown e cia em ordem cronológica em edições capa dura e muito bem traduzidas.

As animações da Turma do Charlie Brown foram exibidas com sucesso na tv brasileira nos anos 80, isso após a passagem dos longas no cinema.

Podemos resumir o mundo dos Peanuts como um microcosmo, uma monstruosa redução infantil de todas as neuroses de um moderno cidadão da civilização industria, nessa historinha cheia de personagens cujas fraquezas, angústias e frustrações fazem uma comédia humana que chega aos limites do desespero, o nosso desespero. De repente, nessa enciclopédia das fraquezas contemporâneas, surgem, como dissemos, clareiras luminosas, variações descompromissadas, alegros e rondós onde tudo se apazigua: em poucas tiradas ágeis e desenvoltas, os monstros voltam a ser crianças, e Schulz toma-se um poeta da infância.

Sabemos que não é verdade, e, contudo, fazemos de conta que acreditamos. Na tira seguinte, Schulz continua a mostrar-nos, no rosto de Minduim, com dois traços rápidos de lápis, a sua versão da condição humana.

Como diz um amigo, essa história é uma verdadeira análise de grupo e engraçado é que, volta e meia, quando me olho no espelho eu vejo Charlie Brown, quando não me vejo Lucy, Linus, Snoopy.
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Consulta bibliográfica:
– Puxa vida, Charlie Brown! – Ed. Artenova
– Grilo #25 – Arte & Comunicação Ltda.

set 22

Quanto Vale Seu Gibi?

 

showimage-aspxQuanto vale o gibi que você quer vender ou aquele que você quer comprar? Aqui no Brasil não temos guias de compras ou listas de preços de quadrinhos antigos feitos de forma idônea e confiável, a exemplo dos EUA e parte da Europa. Houve apenas uma tentativa feita nesse sentido pela equipe editorial da Wizard Brasil (Ed. Globo – 1996), onde a cada edição apresentava uma tabela de preços de determinado título. Muitos gostavam da iniciativa, entretanto outros criticavam pela ausência clara dos critérios usados para cotar cada edição. Mas afinal o que faz uma revista valer mais?

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Nem toda revista antiga ou n° 1 vale tanto para quem compra ou vende. É preciso entender um pouco sobre o mercado de quadrinhos aqui no Brasil, o histórico das editoras e dos títulos. Um dos fatores que diferencia o valor de uma HQ é a tiragem, edições de tiragem reduzida ou limitada tendem a ser mais valorizadas. Um exemplo é a série Akira, publicada pela editora Globo, em que os primeiros números são fáceis de encontrar, tanto em edições soltas quanto nas versões encadernadas, o que não acontece com as edições de n° 23, 31, 32 e 33 as mais difíceis.  Quando a Edição 23 (novembro de 1992) foi publicada, as distribuidoras estavam em greve, de forma que várias cidades ficaram sem esse exemplar. Com as outras, as tiragens eram muito reduzidas, tornado-as raras no mercado. Caso semelhante ocorreu com a coleção Gibi Semanal da RGE, onde entre as primeiras e as últimas edições tiveram a tiragem reduzida em mais de 60%. O mesmo episódio aconteceu para os álbuns do Flash Gordon publicados pela EBAL.

As 29 edições de Mortadelo e Salaminho da Cedibra, nunca tiveram uma segunda tiragem, e hoje essa coleção é muito bem cotada. Como outro exemplo, o encadernado de Watchmen editado pela Abril, sem nada especial, era apenas o encalhe da mini original em 6 edições encadernadas em capa mole, sem nenhum extra e, como foram poucas edições colocadas a venda, tornou-se objeto de desejo entre os colecionadores devido a popularização do título. Não basta o gibi ser raro, precisa haver a procura aliada a dificuldade de encontrá-lo na disputa por obtê-lo, o que o valoriza ainda mais.

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Outra publicação curiosa é o Sandman – Prelúdios e Noturnos, em que o primeiro arco (07 edições originais) foi publicado solto e encadernado pela Editora Globo, encadernado em preto e branco pela Brainstore, solto pela Metal Pesado, encadernado pela Conrad, encadernado em dois volumes pela Pixel e em versão definitiva pela Panini. Em teoria, o mercado estaria abarrotado dessas edições, mas quando a Conrad anunciou que não iria soltar uma segunda tiragem de seu encadernado ela se esgotou rapidamente gerando, em tempo recorde, uma valorização absurda e especulativa da edição nos sites de leilão na internet. Alcançou valores de até 10 vezes o preço original de capa, pois os colecionadores não queriam ter sua coleção defasada, mesmo com as histórias já publicadas.

Há alguns anos as revistas dos anos 50, 60 e 70 de editoras como EBAL, RGE, La Selva, Trieste, Gorrion entre outras, tinham seu valor bem mais alto que os de hoje proporcionalmente falando, pois alguns fatores que influenciaram na queda dos preços:

– O número de colecionadores desse material, se reduz com o passar dos anos, seja por já terem suas coleções completadas ou mesmo por óbito.

– A nova geração de colecionadores pouco busca esse material por ignorá-las ou pela preferência pelas modernas reedições com nova tradução e tratamento gráfico aprimorado.

– A reedição de quadrinhos que antes só se encontravam em edições antigas aumenta a cada ano, republicando-os em formato original, em volumes encadernados e com material extra, como entrevistas, artes conceituais, páginas extras, etc..

Consequentemente, o número de edições à disposição no mercado tem superado a procura, levando a queda de preços.

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Hoje os formatinhos tão populares entre os anos 70 e 90 estão sendo abandonados por muitos colecionadores. O lançamento contínuo de encadernados e coleções especiais reeditando grande parte desse material já publicado com cortes, textos resumidos, compactados ou dispersos em diversos títulos, tem feito o leitor/colecionador optar por manter edições mais luxuosas e selecionadas, dispensando os antigos formatinhos hoje encontrados facilmente a preço de centavos. Em virtude dessa nova oferta de mercado, a busca por formatinhos vem reduzindo a largos passos em igual proporção a sua oferta.

Mas a regra do mercado para os formatinhos não é apenas essa. Enquanto os formatinhos de grandes editoras como RGE/Globo, Abril vem caindo na cotação do mercado, os da Bloch Editores sobem, esses formatinhos hoje tem quase o status de “Cult”, pelo tratamento editorial único dado até hoje para uma HQ. Fazendo uma breve análise, os formatinhos da Bloch eram mal impressos, não se respeitavam as cores originais dos uniformes dos personagens, abuso de gírias da época nos textos, e tinham cores berrantes quase psicodélicas. Mas com tantos pontos negativos o porquê dessa demanda atual por essas revistas? É fato de terem marcado uma fase única editorial brasileira, pelos títulos e histórias até hoje não reimpressas, sem falar da sua própria excentricidade que atrai hoje o colecionador que há poucos anos atrás os renegava.

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No departamento de quadrinhos Disney, as HQ’s contendo histórias escritas e desenhadas por Carl Barks sempre foram disputadas e, recentemente, a Editora Abril relançou toda a sua obra numa coleção primorosa, bom acabamento e repleta de informações até então inéditas ao leitor. Mesmo assim, os quadrinhos Disney antigos não sofreram uma queda forte nos preços, pois cada revista antiga compunha um mix de diversos personagens e autores, além das diferenças nas cores e tradução, e que não foram abandonados pelos colecionadores em favor da nova coleção da Editora Abril.

Mesmo com tudo já colocado aqui, alguns títulos/gênero fogem totalmente de todas as regras tais como Fantasma, Mandrake, Tarzan e as HQ’s de faroeste que permanecem com boa demanda, sendo muito bem valorizadas entre vendedores e colecionadores. Por serem tão históricos e marcantes em nosso mercado, são quadrinhos de extremo apelo popular com: histórias simples, divertidas, sem grandes sagas se dividindo ao longo de diversas edições, fazendo com que o leitor ocasional possa lê-las tranquilamente sem se preocupar com as outras edições. Já o gênero do faroeste é reforçado pelo cinema que tem um número alto de fãs, enquanto os leitores antigos garimpam edições antigas de Roy Rogers por exemplo. Os mais novos disputam a tapa os exemplares antigos de Tex e Zagor e, apesar da diferença de idade, esses leitores/colecionadores que se comunicam pelo gosto em comum fortalecem e valorizam o gênero no mercado.

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Assim como nos livros, edições autografadas tem maior valor por serem únicas e/ou exclusivas, aqui no Brasil os fãs ainda levam suas HQ’s aos festivais e convenções para serem autografadas pela admiração ao trabalho dos artistas para suas coleções particulares, enquanto que nos EUA essa paixão em grande parte cedeu espaço ao comércio e uma HQ autografada hoje está disponível no ebay. Essa prática comercial ainda é tímida em nosso mercado.

Não basta conhecer as regras e exceções do mercado de comercialização dos quadrinhos. Os sites de leilões virtuais não são uma fonte confiável para a cotação de uma revista ou coleção, mas servem de parâmetro para analisar a sua demanda. Conversar com outros colecionadores, frequentar fóruns e comunidades virtuais sobre o tema oferecem uma boa visão sobre o valor daquela revista que está em sua prateleira.gibi-semanal

 

set 22

Capitão Mistério Apresenta:

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Na década de 60 os filmes de horror estavam em voga fato que perdurou até o final dos anos 70 sendo retomado mais tarde. Mas foi na década de 70 que a Marvel Comics investiu pesado em publicações de horror: Motoqueiro Fantasma (Ghost Rider), A Tumba de Drácula (The tomb of Dracula), Lobisomem (Werewolf by Night), Frankenstein (Frankenstein), A Múmia Viva (Supernatural Thrillers featuring The Living Mummy), fora a leva de personagens gerados em outras revistas: O Filho de Satã, Simon Garth o Zumbi, O Exorcista, Satanna, Irmão Vodu, Morbius o Vampiro Vivo, Homem-Coisa, Blade, Lilith a Filha de Drácula, entre outros.

tumbadedraculaNesta mesma época a editora Bloch vivia seus dias de glória, a revista de notícias Manchete ainda era líder de mercado entre outras diversas publicações voltadas para o público adulto, quando Adolfo Bloch voltou seus olhos ao público infanto-juvenil adquirindo os direitos de publicação da Marvel Comics, que até então pertenciam a EBAL e consequentemente a linha de hq´s de horror (que até então eram desconhecidas no Brasil), salvo pela tentativa da Editora Saber em publicar O Túmulo do Conde Drácula (The tomb of Dracula).

No lugar do tradicional cachorrinho no selo de suas revistas infanto-juvenis a Bloch optou por uma imagem dum sujeito mascarado vestindo sobretudo e chapéu com uma lua cheia e um morcego ao fundo, nascia o selo Capitão Mistério: Formatinho, colorido e com uma média de 68 páginas por edição, a Bloch digo Capitão Mistério inundou as bancas brasileiras com os títulos: Aventuras Macabras, Sexta-Feira 13, A Tumba de Drácula, Lobisomem, A Múmia Viva, Frankenstein, Cine-Mistério, Clássicos do Pavor, Histórias Fantásticas e Motoqueiro Fantasma.

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Além das histórias extraídas das publicaçõs já citadas acima, também era utilizado o material das revistas Tower of Shadows, Monsters on The Prowl, Chamber of Chills, Crypt of Shadows, Vault of Evil e Chamber of Darkness, o qual se consistia em histórias curtas no estilo das publicas pela E.C. Comics, escritas e desenhadas por artistas como Jack Kirby, Steve Ditko, Stan Lee, Alfredo Alcala, Gene Colan, John Buscema, Chris Claremont, Don Perlin, Howard Chawkin, Doug Moech, Frank Springer, Jim Steranko, Esteban Maroto, Gil Kane, Rich Buckler, Herb Trimpe entre outros. Inicialmente de forma tímida a Bloch inseria pequenas histórias curtas de uma página apenas feitas por artistas brasileiros, ou pequenas quadrinizações de contos de terror, tornando a prática mais frequente com o passar do tempo até que em casos como Frankestein, A Múmia Viva, Lobisomem e Tumba de Drácula, passarem a ser editadas com material nacional em 100% de suas páginas. Lembrando que poucas vezes as histórias tinham os créditos do roteirista e do desenhista.

As páginas centrais sempre traziam um poster p/b duma cena extraída de algum filme de horror, devidamente acompanhado por uma ou mais matérias sobre as novidades em cartaz como os filmes Blácula, O Santo Contra a Filha de Frankenstein, Fase IV – Desruição, entre outros, ou alguma matéria relativa ao gênero como: Drácula está vivo!, Saudosos Caninos, Mistérios da Macumba, etc… As fotos raríssimas vezes eram coloridas, predominavam os tons de sépia, vermelho, azul, verde ou amarelo.

esc020 07-2258296303tUma outra característica das publicações da Bloch eram as capas, valorizava-se bastante as capas pintadas (mesmo que o conteúdo nada tivesse a ver com a mesma) que davam um tom “sério” a revista, essas capas vinham das versões magazine da Marvel, e para o título A Múmia Viva o número escasso de capas pintadas levou a redação a utilizar um recurso nada ético: Utilizar capas da Savage Sword of Conan, trocando o cimério por uma múmia, mas a editora experimentou a produção de capas nacionais montadas com fotografias feitas em um estúdio improvisado pela redação, a produção das fotos era bem feita e com certo bom gosto apesar do figurino e dos modelos se repetirem várias vezes.

As chamadas nas capas eram algo que nos dias de hoje soariam como surreais: cores vibrantes, balões de destaque, e muita, mas muita gíria da época e muitas vezes essas chamadas estragavam a arte das capas.

sexta-feira-13SEXTA-FEIRA 13 – Além das histórias curtas de horror, trouxe as aventuras de O Zumbi escritas por Steve Gerber e desenhadas por Pablo Marcos, onde Simon Garth voltava a vida para se vingar daqueles que causaram a sua morte. Apesar de suas histórias não terem grande impacto ele se tornou um personagem “cult” tendo seu nome reproduzido em diversas outras revistas, filmes e até mesmo numa escultura que representava um morto-vivo feita pelo artista plástico Marcelo Denny onde Simon Garth era o nome escrito na lápide.

AVENTURAS MACABRAS – Trazia histórias do Conde Drácula anteriores as da cronologia de Tomb of Dracula, além das aventuras não creditadas de Satanna a Filha de Satã, e de Lilith a Filha de Drácula produzidas pela dupla Steve Gerber e Bob Brow, além das tradicionais matérias e histórias curtas.

A TUMBA DE DRÁCULA – No início o título se dividia entre 2 edições de Tomb of Dracula e algumas histórias curtas de horror, para logo ter por completo apenas material da T.D. além  das já citada matérias presentes em cada revista. O roteiro de Marv Wolfman e os desenhos de Gene Colan formaram a química perfeita numa série que soube tratar com o devido respeito a figura de Drácula, com a interrupção do título na Bloch, Tomb of Dracula passou a ser publicada no ano seguinte pela Editora Abril na revista Terror de Drácula, que infelizmente durou poucos números deixando o final da saga da luta entre Drácula, Blade, e os Helsing em aberto para nós leitores brasileiros.

lobisomem-001LOBISOMEM – As primeiras aventuras de Jack Russel surgiram nas páginas de Marvel Spotligh passando depois para seu próprio título (Werewolf by Night), que foi de onde a Bloch retirou o material para a revista Lobisomem, os roteiros variavam entre Len Wein, Gerry Cowan e Marv Wolfman e os desenhos ficavam a cargo de Tom Sutton e Mike Ploog, este por sinal estava no seu ápice como desenhista. A curiosidade é que o Lobisomem foi o único a fazer um crossover com outro personagem da mesma linha (no caso: Tomb of Dracula) em uma aventura em duas partes dividida entre os dois títulos. A saga da maldição de Jack Russel também ficou incompleta, e acabou esquecida pelas editoras que se seguiram após a Bloch.

FRANKESTEIN – Esse é curiosamente um dos títulos do selo Capitão Mistério mais difícil de se encontrar, onde a Marvel deu uma sequência nas aventuras do monstro de Frankenstein longe do conceito original dos primeiros filmes e assim como em A Tumba de Drácula e Lobisomem, após alguns números uma equipe nacional assumiu suas histórias.

CINE-MISTÉRIO – Era a revista voltada em especial aos filmes de horror em suas amplas matérias que entregavam ao leitor o roteiro mastigado do filme em questão. Em termos de quadrinhos além das histórias curtas, o destaque eram as aventuras do Irmão Vodu escritas por Doug Moech e desenhadas por Tony de Zuniga. Os coloristas da Bloch insistiam em mudar a etnia do personagem que era um negro colorindo-o como se fosse branco. Destaque para as adaptações de A Terra Que o Tempo Não Esqueceu (Edgar Rice Burroughs) e O cão dos Baskevilles (Arthur Conan Doyle).

classicos-do-pavorCLÁSSICOS DO PAVOR – Era dedicada as quadrinizações de obras literárias de horror e ficção, seu primeiro número trouxe uma primorosa adaptação de Drácula – Bram Stocker feita a 4 mãos por Naunerle Forr e Nestor Redondo, nos números seguintes vieram O Homem Invisível, A Guerra dos Mundos e O Alimento dos Deuses (H.G. Wells), O Poço e o Pêndulo (Edgar Alan Poe), entre outros, cada qual com uma equipe diferente. As matérias publicadas eram geralmente biografias dos autores e reportagens sobre os filmes feitos (quando existiam).

A MÚMIA VIVA – Somente as 4 primeiras edições de A Múmia Viva trouxeram material estrangeiro oriundo da revista Supernatural Thrillers featuring The Living Mummy, com roteiros de Steve Gerber, Tony Isabela e John Warner e arte de Val Mayerick, foi publicada na íntegra a saga de N´Katu (a múmia viva) enfrentando Os Elementares em um arco de 8 edições com uma qualidade de roteiro e desenhos muito acima da média. Os Elementares voltaram a atacar anos depois nas páginas de Ms. Marvel (publicada aqui no Brasil na revista Superaventuras Marvel). A edição de nº 5 teve como destaque a quadrinização do conto ” A Maldição do Vale do Reis” e a partir do nº 6 em diante a revista ficou com os roteiros de R. F. Lucchetti e os desenhos de Shimamoto que apresentou uma múmia mais “ágil” em lutas dignas de qualquer capoeirista e a revista perdeu o título “viva” da capa.

historias-fantasticasHISTÓRIAS FANTÁSTICAS – Foi a que mais diversificou histórias, em suas páginas foram publicadas as aventuras solo de Blade o Faquista (ou Blade o Matador de Vampiros) escritas por Marv Wolfman e desenhadas por Gene Colan.

Morbius o Vampiro Vivo em excelentes histórias produzidas pela dupla Doug Moech e Sonny Trinidad que souberam explorar as dores e os conflitos de Morbius em busca de uma cura para sua maldição, enfrentando inclusive outros vampiros.

Salomão Kane teve suas aventuras publicadas em diversos números com direito a uma capa misteriosa onde ele aparece ao lado da Sonja a Guerreira.

O Exorcista em que para variar não os créditos não constavam em nenhuma de suas histórias, calcadas no sucesso do filme O Exorcista (The Exorcist – EUA – 1974), que apesar de tudo surpreendia tanto no quesito roteiro quanto nos desenhos, pena que a sub trama envolvendo a ex-mulher de Gabriel (o Exorcista) nunca teve sua conclusão publicada por aqui.

MOTOQUEIRO FANTASMA – Não passou da primeira edição, devido ao término do contrato com a Marvel Comics, publicando apenas as 3 primeiras histórias da revista Ghost Rider com roteiros de Gary Friedich e desenhos de Tom Sutton, o destaque dessas três aventuras publicadas fica para o fato do Motoqueiro Fantasma dominar melhor seus poderes conseguindo a partir de então criar sua própria moto com o fogo infernal ao qual dominava.

minimotoqueiro1Com exceção da revista do Motoqueiro Fantasma, as demais publicações não passaram de 16 edições, sendo logo canceladas, a exceção foi feita com os títulos A Tumba de Drácula e Lobisomem que passaram a publicar apenas material nacional com uma qualidade muito aquém daquela vinha sendo apresentada.

Após o selo Capitão Mistério a linha de quadrinhos de horror da Marvel foi praticamente esquecida no Brasil (salvo o já citado caso de Terror de Drácula), deixando vários fãs saudosistas. Quem conseguir alguma dessas revistas em algum sebo não deixe de ler as seções de cartas que apresentavam inúmeras pérolas dos editores em resposta aos leitores que faziam os mais absurdos pedidos obtendo respostas no mesmo nível.

set 22

Os Pulps

argosy_19200306A primeira publicação denominada “pulp” surgiu no ano de 1896, quando Frank Monsey editor da revista Argosy, que numa manobra para baratear os custos de produção e atingir um número maior de leitores, passou a utilizar um papel mais barato de qualidade inferior, com isso o valor de capa da Argosy passou a menos de 20 centavos de dólar, lembrando que na época o salário médio de um operário americano era de U$ 7,00 e em 1927 a tiragem chegou à casa dos 500.000 exemplares, o que garantiu a publicação da Argosy até 1974.

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Frank Monsey foi além, ele lançou a célebre All Story Magazine que em 1912 publicou o conto “Sob as Luas de Marte” de Edgar Rice Burroughs, que pouco tempo depois escreveu “Tarzan dos Macacos”.

A forte concorrência do rádio e do cinema colaborou com a decadência do gênero “pulp” até seu ressurgimento em publicações temáticas na década de 30, onde a profusão de títulos era enorme: guerra, terror, ficção científica, faroeste e crimes, este último foi o que mais gerou títulos e alavancou nomes como Dashiell Hammett autor de “O Falcão Maltês”.

Esse período foi marcado como uma era de violência nos Estados Unidos, o crime organizado dominava as ruas e era diariamente manchete nos jornais.

Foi a era de ouro de criminosos como Dillinger, Alvin Karpis, Bonnie e Clyde, Ma Baker entre outros. Dinheiro, vingança, passionais, não interessava o motivo, a cada instante ocorria mais um crime.

O cinema já estava explorando esse filão com atores que marcaram época tais como: Peter Lorre, Humphrey Bogart, James Cagney, Edward G. Robinson, etc.. estes eram figuras marcadas nos filmes policiais tanto no papel de detetives quanto de gangsteres.

Com material tão farto correndo pelas ruas e absorvido pela população não tardou para que as editoras explorassem esse filão.

Diante do ritmo frenético que as coisas aconteciam e um público ansioso por novidades, as bancas foram invadidas pelos “pulps”, pois a ordem era produção acima da qualidade, o objetivo era levar o “pulp” ao maior número possível de leitores, com seu custo editorial bastante reduzido o preço de capa não passava de 20 centavos de dólar, mais barato impossível, pois o público alvo era a população de baixa renda a cata de um entretimento a altura do mundo em que ela vivia.11-p

 Somente contado os “pulps” o leitor tinha cerca de 250 títulos a sua escolha, cuja periodicidade variava entre semanal a bimestralmente. Mesmo com essa receita alguns títulos não passaram de uma única edição, outros tiveram vida curta, mas muitos atravessaram a década tornando seus editores ricos.

Cada revista tinha em média 114 a 162 páginas com seis histórias curtas e uma principal. Os temas variavam, nada era estranho ou fantástico demais, não havia limites para a imaginação dos escritores que frequentemente fascinaram, assustaram, chocaram, emocionaram e surpreenderam toda uma geração.

 Os “pulps” eram escritos por um enorme time de escritores profissionais, que travavam lutas diárias em suas máquinas de escrever para criarem centenas de personagens e milhares de histórias. Os heróis não possuíam atributos fantásticos como os de hoje, eram personagens mais reais, mais humanos, que levavam o limite do humanamente possível ao máximo, apesar dos eventuais exageros de alguns escritores.

 704_1066_5O “dream team” dos personagens dos “pulps” sem sombra de dúvida foram: O Sombra, O Aranha, Doc Savage, Tarzan, G-8, O Detetive Fantasma e Fu Manchu, pois estes além de serem sucesso em sua época, atravessaram os anos em livros, quadrinhos e cinema, fossem como adaptações dos mesmos ou como influência na criação de outros heróis.

 DOC SAVAGE – Criado por Lester Dent (que assinava sob o pseudônimo de Kenneth Roberson) para a editora Street & Smith, teve sua estreia em março de 1933 nas páginas de sua própria revista: Doc Savage Magazine com a história “O homem de bronze”, título este que acabou sendo incorporado ao nome do personagem nas edições seguintes.

Trilhando os mesmos caminhos que seu pai, morto em circunstâncias misteriosas. Nenhum desafio era grande demais para ele, Savage falava qualquer língua deste planeta, sabia manejar qualquer arma e pilotar qualquer máquina, possuía conhecimentos avançados em física, química, biologia e mecânica, tinha uma resistência física excepcional, e graças a uma dieta especial seu corpo envelhecia lentamente, e periodicamente ele se isolava na Fortaleza da Solidão (alguém se lembrou do super-homem?), sua base secreta localizada no Ártico, de onde planejava sua próxima empreitada, o mundo era seu lugar comum.

 bookofdeathfinal2O SOMBRA – O personagem de maior sucesso dos “pulps” surgiu em fevereiro de 1929 nas páginas de “Fame and Fortune” que tratava de temas ligados ao mundo das finanças e grandes capitais. Então seus editores encomendaram a George C. Jenks um personagem que fosse o protetor dos honestos investidores que fosse misterioso e ousado. Então sob o pseudônimo de Frank S. Lawton, Jenks escreveu “The Shadow of Wall Street”, e quando tudo ia bem, veio a queda da bolsa de valores e consequentemente seu novo protetor.

Mas os editores da Street & Smith tinham um programa no rádio e aproveitando o personagem, o levaram aos lares americanos com suas histórias cheias de mistério e suspense, o narrador era o jovem Orson Wells.

E a gargalhada sinistra do personagem arrepiava homens e mulheres tornando-o também anunciante das novidades da revista “Detective Story Magazine”, e o sucesso foi tão grande que foi lançado um concurso com o polpudo prêmio de 500 dólares a quem descobrisse a identidade do Sombra, até que no ano de 1933 chegou às bancas “The Shadow Magazine” como publicação trimestral, mas a rapidez das vendas e o sucesso do personagem impulsionaram duas revistas mensais. Além do rádio e “pulps”, assim como Doc Savage, O Sombra foi adaptado ao cinema e aos quadrinhos, tendo também no Brasil seu programa de rádio.

 hadv52O DETETIVE FANTASMA – Criação de G. Wayma Jobes que escreveu as nove primeiras histórias passando o bastão para Robert Wallace, o Detetive Fantasma era um playboy milionário que após vencer um desafio feito por um amigo para investigar junto à polícia um crime insolúvel, percebe seu “dom” para desvendar os inúmeros casos que assolavam New York. Para cada vez que era solicitado, uma luz vermelha se acendida no topo de um edifício (prelúdio do bat sinal?). Sua especialidade eram os disfarces criando um personagem novo para cada caso investigado, após 170 edições, o Detetive Fantasma desapareceu das bancas no ano de 1953.

sp103 O ARANHA – Foi o maior rival do Sombra em termos de popularidade, misterioso, vingativo, justiceiro e implacável foram os atributos dados ao personagem em 1933 por seu criador: Reginald Thomas Maitland Scott que após 20 edições abandonou o título deixando que Grant Stockbridge pseudônimo de Norvell Page escrevesse as 116 histórias seguintes.

Para o Aranha reabilitação e perdão se resumiam a uma bala entre os olhos do criminoso, sempre! A morte era certa para aquele que caísse em sua teia.

Outro diferencial de suas histórias eram seus antagonistas, o Aranha se dedicava às grandes quadrilhas em aventuras como “O Reino do Terror Prateado, “O Imperador da Morte”, “Escravos do Monarca Negro”, “O Governante do Inferno”. Em 1938 a Columbia Pictures o levou aos cinemas sob a forma de seriado, em uma produção razoavelmente fiel. A teia da justiça do Aranha se encerrou em 1943.

 6222052894_843fdf7027_zFU MANCHU – Era o vilão que todo herói não gostaria de ter, criado em 1912 por Arthur Sarsfield Ward ou simplesmente Sax Rohmer, em histórias cruéis onde invariavelmente obtinha seu sucesso, Fu Manchu teve sua glória maior na editora Marvel comics, longe dos “pulps”, mas nas páginas de “Master of Kung Fu” como o pai do herói Shang Chi tornando-se seu maior inimigo.

 704_1065_4G-8 AND HIS BATTLE ACES – Aviadores pilotando antiquíssimos biplanos enfrentando alemães, monstros, vampiros, espiões, robôs e até mesmo os fantásticos Raios da Morte. O piloto espião G-8 foi fruto da mente de seu criador, um ex-aviador chamado Robert Jasper Hogan, com 110 edições publicadas entre as décadas de 30 e 40, foi o personagem que mais gerou plágio no mundo dos “pulps”.

 weird_tales_november_1941Um fato curioso a respeito dos “pulps” era a ausência dos crossovers, todos os personagens habitavam a mesma cidade e nenhuma editora lampejou a ideia de um encontro entre eles devido à concorrência acirrada entre as editoras.

Assim vemos que muitos dos conceitos de personagens que temos hoje são heranças destes e de outros heróis que apesar dos anos não se perderam no tempo.

 

 

 

Consulta bibliográfica:

– Patota #13, 14, 15 e 18 – editora Artenova.

– Planetary / The Authority # 02 – Pandora Books

– O Mundo Perdido #01 – Gian Danton 

set 21

Vampirella

 

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Vampirella é uma garota. Quando nós mandamos a capa promocional para nossas distribuidoras, eles disseram:
– Impossível! Não distribuiremos isso!
– Por que não?
– Por que é uma garota, ela tem seios, ela tem coxas.
– E daí?
– As crianças não sabem disso!
– Ora, há apenas uma organização que eu conheço que acredita nisso.. o Código de Ética das Histórias em Quadrinhos.
– Você poderia… cobri-los um pouco?
– Não! por que se nós fizermos isso, arruinaremos com a personagem que Frank Frazetta criou. E ele é italiano. E Ele virá e matará vocês!

James Warren

Muito antes da escritora inglesa Tanith Lee escrever Sabella (Sabella or the Blood Stone), onde nos apresenta Sabella uma vampira espacial, nos quadrinhos já tínhamos a presença de uma vampira galáctica, cujo nome, Vampirella é uma combinação de Vampyr, título do filme: O Vampiro (Vampyr – 1932), do cineasta dinamarquês Carl Dreyer (1889-1968), com a terminação ella, de Barbarella.

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Vampirella é a personagem mais conhecida da Warren Publishing Company, uma editora de propriedade de James Warren, o responsável pelo ressurgimento do horror nos quadrinhos norte-americanos, após um hiato de quase dez anos. Seus magazines (formato adotado para escapar dos termos do Código de Ética): Creepy (1964) e Eerie (1965 – que gerou aqui no Brasil a saudosa revista Kripta), renovaram os quadrinhos, desde o formato até a escolha dos temas, não se restringindo às figuras tradicionais do horror como lobisomens, monstros e zumbis, mas mostrando o horror de nosso dia-a-dia, infestado de loucos, maníacos e psicopatas, seguindo na mesma linha das extintas publicações da EC. Além de conar com alguns artistas dessa empresa, entre os quais Frank Frazetta, John Severin, Al Williamson e Wallace Wood, a Warren deu igualmente oportunidade ao novos desenhistas de toda a parte do globo como: Auraaleon, Azpiri, Esteban Maroto, Luis Bermejo, Joaquim Blazques, Jaime Brocal, Leo Duranona, José Gonçalez, Pablo Marcos, Gonzalo Mayo, Isidro Mones, José Ortiz, Martin Salvador, Leopoldo Sanchez e Sanjulian.

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Era difícil fugir à tentação do visual criado para Vampirella:morena de rosto angelical, olhos claros e enormes, boca voluptuosa, trajando um sumário maiô vermelho que descobria a maior parte de seu corpo, além de botas e sutis ornamentos como os braceletes e os brincos em forma de asas de morcego, morcego este que estava sutilmente tatuado em seu seio esquerdo. Estreou em título próprio: Vampirella (1969). O logo da revista e as capas da revista ficaram a cargo de Frank Frazetta, os roteiros couberam a Forrest J. Ackerman, um dos maiores colecionadores mundiais de material sobre fantasia, ficção científica e horror, e coordenador da Famous Monsters of Filmland (revista sobre filmes do gênero, tbm editada pela Warren), o traje de Vampirella foi criação de Trina Robbins e como desenhista Tom Sutton foi o escolhido.

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Antes de mudar de editora, ter sua origem virada e revirada, ganhar e perder poderes e ser transformada numa mera vampira gostosa em histórias fracas (comparadas com as da primeira fase), a origem da Vampirella começou assim:
Originária do planeta Drakulon, um mundo onde os rios eram de de sangue, o alimento básico de seus habitantes. Nosso tão famoso Conde Drácula, também nativo deste planeta, pesquisando sobre Drakulon, descobriu que ele iria sair de seu eixo, e que os polos iriam se inverter, as florestas desaparecer, sendo substituídas por desertos e os rios de sangue secariam e, portanto todo o povo morreria. Avisou o Conselho Científico de Drakulon a respeito de suas descobertas; porém ninguem lhe deu ouvidos. Drácula, então, entrou em contato através da feitiçaria com uma antiga e justa deusa, a Invocadora, que lhe orientou como salvar drakulon. Entretanto, ao invés de seguir os ensinamentos da Invocadora, Drácula passou a servir ao Caos, o deus louco, que com seus sete demônios: Asmodeus, Demogórgan, Fursan, Moloch, Nuberus, Valefar e Zabylon, pretendia dominar o universo. Drácula foi enviado para a Terra e iniciou seu cruel reinado de sangue.

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Vampirella terminou vindo também para cá, uma vez que ficasse em Drakulon pereceria como os demais, tornando-se assim a última representante de sua raça como ela mesma se definiria: “Venho de um mundo chamado drakulon e sou da raça dos Vampiros. Posso transformar-me num morcego e preciso alimentar-me de sangue, como os humanos de água…. Sou estranha à Terra… mas não sou um monstro da noite, não sou um produto da superstição.. Última de minha raça, trago a recordação imperecível do mundo que era meu… Drakulon! As águas corriam quentes e profundas, mais vermelhas do que o vinho..Não existiam feras, existiam criaturas que se amavam e amavam a vida…Sou tudo quanto resta de um mundo que preferiu morrer a matar… Chamam-me Vampiro..Alguns me tem temor, outros me tem ódio.. pois sou estranha a todos.. Mas que as superstições não destruam a amarga doçura de Drakulon…Onde o Vampiro significava um ser gentile bondoso… Assim sobrevivi. E vivo..Tento restabelecer a gentileza e bondade perdidadas.. Sobreviverei…Recordarei as minhas raízes, a minha herança.. Sou a última da minha raça…Sou vampirella!”

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Uma vez na Terra auxiliada por um velho mago, Pendragon, Vampirella lançou-senuma desenfreada luta contra Drácula e as forças do Caos. Entre seus perseguidores, contou com dois descendentes do Dr. van helsing: Conrad Van helsing um médium cego, e seu filho, Adam Van Helsing, que se apaixona por Vampirella. Graças a líquido sintético preparado por Conrad é que Vampirella conseguiu controlar sua sede de sangue, porém o composto tem efeito temporário, devendo ser tomado a cada 24 hrs.
Dentre os roteiristas de Vampirella tivemos: Chad Archer, Gerry Bourdreau, Bill DuBay, Steve Englehart, Archie Goodwin, Budd Lewis, entre outros. Seus desenhos ficaram nas mãos de artistas como: Howard Chaykin, José Gonzalez, Gonzalo Mayo, josé Ortiz, leopoldo Sanchez, Tom sutton e Zesar.

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No Brasil, do material editado pela Warren apenas a editora Kultus em 1973 e a Noblet em 1977, publicaram algumas edições da série original. Inclusive, com histórias apresentando o início da carreira de Howard Chaykin que, em 1991, publicou a polêmica mini-série “Black Kiss”. Vampirella participou também de algumas aventuras de ROOK O Viajante do Tempo, personagem publicado no Brasil com sucesso nas páginas da revista Kripta, e teve um almanaque publicado pela mesma editora (RGE). Além dos quadrinhos Ron Goulart escreveu seis novelizações da personagem em 1976. No início dos anos 80 cogitou-se levar Vampirella para os cinemas com a modelo Barbara Leigh no papel-título, pois esta ja havia encarnado a personagem em várias capas e tinha uma legião de fãs, mas infelizmente o projeto acabou sendo engavetado.
Com a falência da Warren em 1983, Vampirella parou de circular, voltando anos depois através de outras editoras e totalmente reformulada, mas isso é outra história….
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Consulta bibliográfica: A Ficção Científica nos Quadrinhos – Marco Aurélio Luchetti

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