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set 26

Almanaque do Humordaz

humordaz0002A história do Humordaz começou no jornal Estado de Minas, mais precisamente em uma pequena coluna assinada pelo Procópio, que aos poucos foi crescendo, quando então a convite vieram os cartunistas Lor e Nilson, além do Dirceu, que se intitulava como frasista.

Tomando cada vez mais espaço na página graças à crescente aceitação dos leitores, o time de colaboradores aumentou com a presença de Afo, Benjamin e Mário Vale, e o resultado foi uma página inteira com o melhor do humor produzido em Minas Gerais, publicada todos os sábados no segundo caderno, batizada como Humordaz.

Dentre os maiores sucessos do Humordaz, mais que os textos do Procópio e as frases do Dirceu, as charges tornaram-se o carro chefe da página. O número de colaboradores crescia cada vez mais: Aroeira, Dirceu, e Clacchi logo entram na equipe.

Dos chargistas, Afo, Lor e Aroeira brilhavam com suas charges envolvendo temas políticos e sociais, em plena era da ditadura militar. A equipe utilizava o mesmo artifício adotado pelo pessoal do Pasquim: Criavam charges “extras” propositalmente mais fortes para serem barradas pela censura, enquanto as outras passavam para a publicação, era a técnica do “boi de piranha”.

Mas uma página semanal era pouco, reunidos periodicamente dentro das galerias do Edifício Malleta, ponto de encontro da boêmia, artistas, jornalistas e intelectuais de Belo Horizonte. Sentados nas mesas do Lua Nova e da Cantina do Ângelo, entre uma cerveja e outra, elaboravam novas charges, discutiam política e principalmente: a criação de uma revista que agregasse todo o trabalho deles de maneira totalmente livre e independente.

Era uma época sem internet, e mesmo o telefone era pouco usado, portanto o que valia eram as cartas e as rodas de amigos reunidos periodicamente de modo quase religioso. Era uma maneira mais humana e calorosa de se ter contato com artistas novos e veteranos, e não raro aconteciam os apadrinhamentos: artistas já firmes no mercado que descobriam novos talentos e os ajudavam nos jornais e revistas para serem publicados, era algo feito com a maior boa vontade.

O nome da revista não poderia ser outro: Almanaque do Humordaz, afinal eles queriam o público leitor que os acompanhavam no Estado de Minas já a quase dez meses, e o nome era o gancho perfeito. Para montar a “Editora Humordaz Sociedade Civil Ltda.” e compor o quadro editorial precisavam de um jornalista para assinar o expediente, e conseguiram isso com Geraldo Magalhães. Nilson que já havia morado e trabalhado com o Henfil, conseguiu dele o editorial para o primeiro número, em um texto que fala sobre a realidade do cartunista/desenhista brasileiro que em busca de espaço para seu trabalho no Rio de Janeiro e em São Paulo (que na época eram os principais centros editoriais do país), encontra a realidade crua a ser enfrentada, principalmente pela concorrência do material estrangeiro distribuído pelos Syndicates por preços irrisórios, tornando impossível uma concorrência. Henfil aponta como solução, as publicações regionais, como o Almanaque do Humordaz.

A imagem que abre esta matéria era para ter sido utilizada como capa para a primeira edição, um trabalho primoroso do desenhista Benjamin, mas com o apoio de alguns colegas, Nilson vetou o uso do desenho para a capa por dois motivos:

1 – Era muito assustadora (para aquela época), e poderia não ser atrativa para os leitores.

2 – Apesar de o Benjamin ter trabalhos publicados no Humordaz, a capa do Almanaque deveria trazer uma ilustração dele, do Afo ou do Lor por serem mais cartunescos.

Sendo assim a questão foi fechada: a capa seria do Afo e do Lor, e o desenho do Benjamin seria utilizado como capa do n° 2.humordaz1

Mas de alguma forma a arte do Benjamim foi publicada na segunda capa da primeira edição sem ao menos uma legenda anunciando-a como capa da próxima edição.

Assim, impressa em off-set, formato 22 x 16 cm, capa em duas cores e miolo em preto e branco, ficou pronta a edição.

O lançamento do Almanaque do Humordaz foi feito no Teatro Marília, com toda a pompa merecida. Somente naquela noite foram vendidos cerca de 400 exemplares, todos devidamente autografados pelos autores.

Uma das idéias do Almanaque era ter a cada edição, um desenhista mineiro já consagrado como convidado especial. O escolhido para a primeira edição foi o Nani, cartunista nascido em Esmeraldas, com ótimos trabalhos já publicados no “Pasquim”.

Pouco tempo depois, uma descoberta: cartuns inéditos do cartunista Carlos Estevão, encontrados por Carlos Felipe nos arquivos dos “Diários Associados”, estava decidida a capa da segunda edição e o convidado especial.hummordaz0001

Eleito mineiro honorário, o pernambucano Carlos Estevão foi devidamente homenageado no Almanaque do Humordaz. Reproduzindo a última entrevista dada por Carlos Estevão, publicada originalmente no “Diário da Tarde” de 04/03/1972, praticamente quatro meses antes de seu falecimento.

Um aviso em forma de carimbo informava aos leitores que a publicação era voltada para maiores de 16 anos, a censura batia na porta. Agora o Almanaque do Humordaz era distribuído nacionalmente, mesmo demorando um mês ou dois, a revista chegou a diversos rincões do país.

O Almanaque do Humordaz fazia troça com a política e a sociedade da época, botando o dedo na ferida sem o menor constrangimento, o que levou a equipe a receber uma sinistra notícia: A partir daquele mês (julho/1976), o almanaque estava sujeito à censura prévia, antes de ser publicado, deveria ser enviado à Brasília pra ser avaliado pelo órgão censor, que determinaria o que poderia ser publicado ou não.

A terceira edição já se encontrava toda selecionada e em processo de diagramação, não querendo se submeter à censura prévia, que iria demandar despesas e atrasos, e a certeza de que o Almanaque não sobreviveria de forma digna após uma passagem por Brasília, ficou decidido o fim do Almanaque do Humordaz.

Acabava o Almanaque nas bancas, mas a página semanal no Estado de Minas continuou por cerca de um ano e meio, alegrando os leitores de toda a Minas Gerais. Assim ao lado de “Araruta” (Porto Alegre), “Casa de Tolerância” (Curitiba), “Uai!” (Belo Horizonte), “O Outro” (Recife), “Cabra Macho” (Natal), “Livrão de Quadrinhos”, “Balão” e “Habra Quadabra” (São Paulo), “Risco” (Brasília) e “O Bicho” (Rio de Janeiro), o Almanaque do Humordaz  ajudou a compor o movimento alternativo do quadrinho nacional dos anos 70.

 

Referências bibliográficas:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2009/08/nilson-o-guerrilheiro-do-cartum.html
http://www.tribunadacidade.xpg.com.br/afo_cidade_nova.html
http://www.rio.rj.gov.br/arquivo/anexo/catalogo_imprensa_alternativa.pdf
http://hqmaniacs.uol.com.br/principal.asp?acao=materias&cod_materia=562
Almanaque do Humordaz #01 (junho/1976)
Almanaque do Humordaz #02 (julho/1976)
Agradecimento especial ao cartunista Nilson, cujas informações dadas em entrevista, enriqueceram esta matéria.

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