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set 25

O Bicho

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“Este é o bicho que avisamos que vai pegar:

Gordo de 32 páginas.

Grampeado no lombo.

De cor variável por fora

E preto e branco por dentro.

Enfim, um bicho de papel.

Mas de espécie nunca vista, inteiramente inédita por estas bandas: uma revista de HQB. Histórias em Quadrinhos Brasileiras.

Para adultos, de jovens para cima.

Quadrinhos cômicos e sérios, cartuns, desenhos de humor e desenhos.

Os melhores daqui e de agora, daqui e de fora, nunca esquecendo os daqui de ontem.

O Bicho é isso aí, ou é isso aí, bicho. Nenhum bicho específico, mas no sentido geral.

Bicho de criação, bicho carpinteiro, bicho de sete cabeças. De fato, O Bicho já estava por aí, no ar, no solo e subsolo, desmontado mas novo em folha, faltando só juntar as partes, para se apresentar inteiro e poder conquistar, pela qualidade, o título de Bicho de estimação.”

Com esse texto de apresentação, o cartunista Fortuna dava as boas vindas ao leitor na primeira edição de O Bicho. Em meados de março de 1975, dois meses após a distribuição gratuita do n° zero, chegava às bancas a primeira edição de O Bicho.

Conta a lenda que, na época em que Fortuna se preparava para lançar sua revista, Luiz Gê foi conversar com ele e ficou muito satisfeito em saber que o veterano cartunista estava se baseando na experiência da Balão como orientação do seu projeto. Luiz Gê teria dito: “Gostei de ouvir isto! O que me assegura que entramos para a história”.

Lançado pela editora Codecri (Comitê de Defesa do Crioléu), e editado por Fortuna, com uma tiragem de 15 mil exemplares, O Bicho chegou às bancas trazendo a nata dos cartunistas da época, além de resgatar trabalhos antigos de cartunistas e desenhistas brasileiros. Havia espaço também para o material estrangeiro, devidamente selecionado, privilegiando artistas pouco conhecidos por aqui.

A importância desta revista encontra-se no fato de que, trazendo aos quadrinhos a questão do experimentalismo da linguagem – ela veiculava histórias produzidas no intuito de bater de frente com as antigas concepções estéticas baseadas nas HQs enlatadas que eram trazidas ao país até então, além da crítica ao moralismo presente em nossos costumes.

DISSECANDO “O BICHO”

bicho-05Contando com Luiz Gê e Miguel Paiva como colaboradores internacionais, a equipe principal de colaboradores da revista, já tinha passagem pelas páginas dos jornais Pasquim e Pingente, respectivamente: Nani, Coentro, Guidacci, Fortuna, Mollica, Duayer, Laerte, Dirceu Amádio, Paulo Caruso e Crau também marcaram presença, sendo que alguns deles já colaboravam com a revista Balão.

Aos poucos o time aumentou: Mariza, Michele, Luscar, Lapi, Chico Caruso, Miguel Paiva, Redi, Geandré, Luiz Fernando Veríssimo, Nilson, Canini, Parrot e Fausto.

A revista trazia sob o título o lema: “Cartuns e Quadrinhos não enlatados”, o que dava lugar a artistas como Quino, Roger Brand, Crumb, Wolinsky e Mary Kay Brown, entre outros, lugar garantido em suas páginas.

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O Bicho teve vida curta, apenas oito edições, sendo seis editadas pela Codecri e as duas últimas pela EMEBE Editora Ltda. A cada edição trazia uma matéria especial sobre quadrinhos antigos, resgatando a memória de artistas como  Seth, Luiz Sá, Carlos Estevão. Mas foi na segunda edição, que O Bicho publicou com exclusividade, todos os detalhes da batalha do Henfil para publicação do Fradim nos Estados Unidos. Mostrando o modelo do contrato padrão da UPS, com as devidas alterações feitas pelo Henfil, curiosamente anos depois Bill Waterson (Criador de Calvin & Haroldo), se valeu de praticamente as mesmas exigências em seu contrato com a UPS.  Essa matéria nunca foi totalmente reproduzida em nenhuma outra publicação, tornando-a leitura obrigatória a todos os leitores.

bicho-03Na terceira edição, Fortuna foi até o Sanatório Azevedo Lima entrevistar o desenhista Luíz Sá, que se encontrava internado para tratamento de tuberculose. Nessa entrevista, Luiz Sá fala de toda a sua carreira, inclusive sobre os seus desenhos animados. Através desta entrevista, um colecionador identificou ter em seu acervo parte das películas originais de um de seus desenhos animados, e dois meses depois, O Bicho reproduziu em suas páginas, as imagens dessas películas.

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Na quarta edição, foi resgatada uma série de tiras produzidas em 1948, desenhadas por Carlos Estevão e escritas por Millôr Fernandes ( que na época assinava como Vão Gôgo). Publicadas no Diário da Noite: “Ignorabus, o Contador de Histórias” era totalmente diferente das tiras convencionais da época, brincando com os recursos da metalinguagem e do non-sense, a tira terminava propositalmente em um loop de flashbacks.

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A sexta edição de O Bicho, que foi a última editada pela Codecri, publicou uma hq de ficção científica chamada: “A Terra”, escrita por Dirceu Amádio e ilustrada por Leo (Luiz Eduardo de Oliveira). Dirceu Amádio que já era colaborador da Balão, anos depois veio se tornar empresário do setor metalúrgico, e foi reconhecido em 2001 como um dos empresários que mais investiu no setor cultural. Enquanto isso Leo, passou a viver na frança, onde se consagrou como desenhista, admirado mundialmente pelos álbuns da série Aldebaran (publicados no Brasil pela Panini  – maio/2006). Leo em entrevista publicada na revista Wizmania # 42 (panini – março/2007), declarou não ter sido pago pelos editores, pela história publicada em O Bicho, de fato nessa fase com as contas apertadas, praticamente nenhum colaborador recebeu qualquer pagamento, pois as vendas mal pagavam os custos e a falta de anunciantes levou Fortuna a abrir uma empresa fantasma para anunciar no Bicho e com isso tentar atrair anunciantes reais para a revista.

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A oitava e última edição de O Bicho, trazia a  quadrinização da música “Chiquinho Azevedo” (Gilberto Gil – 1976), com o roteiro elaborado por Fortuna e ilustrada por Crau. Reproduzia também uma nota do JB, que comemorava o acordo entre Maurício de Souza e a Warner, para a publicação das tiras do Pelezinho (outubro/1976), e que em menos de um ano ganhou revista própria na Editora Abril (agosto/1977).

E foi assim que em novembro de 1976, O Bicho apareceu pela última vez nas bancas, apesar de poucos números lançados, tornou-se ao lado da Balão, um dos marcos editoriais que abriu caminho para novos artistas, formulações temáticas e críticas com total liberdade aos autores. Somente dez anos depois tivemos uma nova publicação nestes moldes: Circo (outubro/novembro – 1986), mas isso é assunto para outra matéria.

Consulta bibliográfica:
http://www.itaucultural.org.br/aplicExternas/enciclopedia_ic/Enc_Artistas/artistas_imp.cfm?cd_verbete=3855&imp=N&cd_idioma=28555
http://hqmaniacs.uol.com.br/principal.asp?acao=materias&cod_materia=562
http://midia-radical.blogspot.com/2008/08/imprensa-alternativa.html
http://blogln.ning.com/profiles/blogs/o-pasquim-quarenta-lances
http://br.groups.yahoo.com/group/EuroQuadrinhos/message/1626
http://lambiek.net/artists/l/leo.htm
http://jornalivros.co.cc/?p=235
http://www.guiadosquadrinhos.com/thumb.aspx?cod_tit=bi212100&esp=&total=9
Agradecimento especial ao Fábio Dark pelo scan das entrevistas.

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